29/04/2026

A Logística e o Impacto da Tecnologia IoT na Gestão de Embalagens

 A Logística e o Impacto da Tecnologia IoT na Gestão de Embalagens



Por Paulo Franceschini, diretor Comercial e Operações da Tegma Gestão Logística


A logística vive uma transformação estrutural impulsionada por mudanças profundas nas cadeias produtivas globais. A crescente complexidade das operações, a fragmentação geográfica dos fornecedores, a pressão por eficiência de capital, a necessidade de maior resiliência e as demandas cada vez mais rigorosas por sustentabilidade estão redefinindo o papel da logística dentro das organizações. Se antes era vista como suporte operacional, hoje ela ocupa posição estratégica na competitividade industrial. Nesse cenário, previsibilidade, integração e inteligência operacional deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos básicos.


Entre as macro tendências que moldam essa nova logística, a digitalização ocupa papel central. O avanço de tecnologias como analytics, inteligência artificial, automação e Internet das Coisas (IoT) está promovendo uma mudança definitiva na forma como ativos são monitorados, processos são gerenciados e decisões são tomadas. A IoT, em especial, vem permitindo visibilidade em tempo real de fluxos físicos, integrando dados operacionais à gestão estratégica. E é dentro desse contexto de transformação tecnológica que a gestão de embalagens retornáveis emerge como um dos campos mais impactados pela aplicação inteligente dessas soluções.


A crescente criticidade da gestão de embalagens na logística industrial


Tenho observado uma mudança silenciosa, porém estrutural, na forma como a indústria enxerga a gestão de embalagens retornáveis.


Se antes elas eram tratadas como um elemento operacional secundário, hoje se consolidam como um ativo estratégico dentro da cadeia logística, especialmente na logística inbound. Em operações industriais de alta complexidade, como as do setor automotivo e de bens duráveis, a embalagem deixou de ser apenas um meio de transporte de componentes. Ela passou a representar continuidade produtiva, previsibilidade operacional e eficiência financeira.


Quando falamos em cadeias que envolvem centenas de fornecedores, múltiplos modais e fluxos sincronizados com linhas de produção just-in-time, qualquer ruptura no fluxo de embalagens pode significar algo muito maior do que um atraso logístico: pode representar parada de linha.


Esse nível de criticidade exige uma mudança de mentalidade. Não estamos falando apenas de logística. Estamos falando de gestão de ativos industriais.


Os limites do modelo reativo na gestão de ativos retornáveis


Historicamente, a gestão de embalagens retornáveis foi conduzida de forma predominantemente reativa. Inventários periódicos, controles manuais, planilhas descentralizadas e pouca visibilidade da localização real dos ativos eram práticas comuns.


Esse modelo apresenta três fragilidades estruturais:


1. Falta de visibilidade em tempo real. Sem rastreabilidade precisa, as decisões são tomadas com base em dados defasados.
2. Ociosidade invisível. Embalagens ficam paradas em fornecedores, centros de distribuição ou áreas internas sem que a gestão perceba rapidamente o impacto no ciclo de giro.
3. Aumento de capital imobilizado. Diante da incerteza sobre disponibilidade, muitas empresas optam por adquirir novas embalagens como mecanismo de segurança, ampliando o investimento em ativos que poderiam estar simplesmente mal distribuídos.


Esse cenário gera uma cadeia de decisões corretivas. Age-se após o problema se manifestar. Ajusta-se quando a ruptura já está próxima. Compensa-se com capital quando faltam dados.


Foi justamente nesse ponto que a tecnologia IoT começou a transformar o jogo.


IoT como camada de inteligência operacional na logística


A Internet das Coisas aplicada à gestão de embalagens não deve ser entendida apenas como rastreamento. Ela representa uma camada de inteligência operacional.


Ao incorporar sensores, dispositivos de identificação e integração sistêmica, passamos a ter visibilidade ponta a ponta do ciclo de vida da embalagem. Onde está, há quanto tempo está, quantos ciclos já percorreu, qual fornecedor está com o maior estoque, qual rota apresenta gargalo.


Quando esses dados deixam de ser pontuais e passam a ser estruturados, consolidados e analisados em tempo real, a gestão muda de patamar.


A IoT permite que a embalagem seja monitorada como um ativo dinâmico, não como um item estático de inventário. E mais importante: permite que a tomada de decisão seja baseada em dados concretos e não em estimativas.


Na prática, isso significa sair do modelo de controle físico para um modelo de governança digital do ativo.


Em uma operação industrial monitorada com IoT, é possível acompanhar centenas de milhares de embalagens ativas simultaneamente, distribuídas por dezenas de fornecedores em múltiplos estados. A integração com sistemas de gestão possibilita visualizar o fluxo completo e antecipar necessidades antes que o risco operacional se materialize.


Essa mudança altera não apenas a eficiência logística, mas a lógica de gestão.


Da reação à predição: o impacto real na tomada de decisão


A principal transformação que a IoT trouxe para a gestão de embalagens não está apenas na rastreabilidade. Está na capacidade preditiva.


Quando acumulamos dados históricos combinados com dados em tempo real, passamos a identificar padrões. Conseguimos prever ciclos de retorno, antecipar gargalos e redistribuir ativos antes que a ruptura aconteça.


Em operações industriais que monitoram mais de 300 mil embalagens retornáveis, com cerca de 1.700 viagens mensais e integração com dezenas de fornecedores em múltiplos estados, a visibilidade proporcionada pela IoT reduz drasticamente a necessidade de decisões emergenciais.


Em experiências práticas no setor, observamos ganhos como:


• Redução significativa de perdas físicas de embalagens
• Aumento do giro médio dos ativos
• Diminuição da necessidade de aquisição de novos contêineres
• Melhoria na sincronização com linhas de produção
• Redução de capital empatado


Em determinados contextos industriais, a aplicação estruturada da IoT na gestão de embalagens permitiu elevar a taxa de rastreabilidade para praticamente 100% dos ativos monitorados.


Isso significa que a tomada de decisão deixa de ser reativa. Ela passa a ser orientada por indicadores.


Em vez de perguntar “quantas embalagens estão faltando?”, começamos a perguntar “qual o comportamento do ciclo de retorno e como podemos otimizar sua distribuição?”.


Essa é uma mudança profunda de mentalidade.


Embalagens como ativo estratégico e vetor de competitividade


Existe ainda um impacto que considero particularmente relevante para o setor: a conexão entre tecnologia, eficiência e sustentabilidade.


A embalagem retornável, quando bem gerida, é um instrumento direto de economia circular. Ao aumentar seu ciclo de vida útil e reduzir perdas, diminuímos a necessidade de produção de novos ativos, reduzimos consumo de matéria-prima e ampliamos a eficiência ambiental da operação.


Mas essa eficiência só é possível quando há governança.


Sem dados estruturados, a economia circular se limita a uma intenção. Com IoT, ela se transforma em prática mensurável.


Ao tratar a embalagem como um ativo estratégico monitorado digitalmente, a empresa passa a gerir não apenas custo logístico, mas risco operacional, impacto ambiental e competitividade industrial.


A IoT, nesse contexto, não é apenas uma inovação tecnológica. Ela é um habilitador de maturidade logística.


O setor de logística vive uma transição clara. A complexidade das cadeias produtivas, a pressão por eficiência e as exigências de sustentabilidade demandam decisões cada vez mais baseadas em dados.


Na gestão de embalagens retornáveis, essa transformação é evidente.


Saímos de um modelo reativo, baseado em controles físicos e ajustes corretivos, para um modelo preditivo, estruturado por inteligência operacional.


Acredito que esse movimento não é opcional. Ele é estrutural.


Empresas que enxergarem a embalagem como ativo estratégico e adotarem tecnologia como instrumento de governança estarão mais preparadas para lidar com volatilidade, risco e pressão por eficiência.


A logística sempre foi sobre fluxo. Agora, ela também é sobre dados.


E a gestão de embalagens é um dos melhores exemplos de como a tecnologia pode redefinir a tomada de decisão dentro da cadeia logística.


Não estamos falando mais se vamos usar ou não o IoT nas operações logísticas industriais e sim quando.



Notícias Relacionadas
 Diesel em alta expõe fragilidades e acelera debate sobre transição energética

29/04/2026

Diesel em alta expõe fragilidades e acelera debate sobre transição energética

A alta do combustível, em meio às tensões geopolíticas no Oriente Médio, vai além de um impacto conjuntural sobre custos e reacende um debate estrutural: a vulnerabilidade da matriz logí (...)

Leia mais
 JSL usa simulador para treinar motoristas e reduzir índice de acidentes nas estradas do país

28/04/2026

JSL usa simulador para treinar motoristas e reduzir índice de acidentes nas estradas do país

A segurança no trânsito é peça central para o setor logístico, que depende da circulação diária de cargas pelas estradas. Diante dos riscos de acidentes, grandes empresas de logística es (...)

Leia mais
 DHL Supply Chain inaugura centros de distribuição para e-commerce em Cajamar (SP) e Brasília (DF)

27/04/2026

DHL Supply Chain inaugura centros de distribuição para e-commerce em Cajamar (SP) e Brasília (DF)

A DHL Supply Chain anunciou a inauguração de dois centros de distribuição voltados a operações de e-commerce, localizados em Cajamar (SP) e Brasília (DF). Os armazéns multicliente integr (...)

Leia mais

© 2026 ABOL - Associação Brasileira de Operadores Logísticos. CNPJ 17.298.060/0001-35

Desenvolvido por: KBR TEC

|

Comunicação: Conteúdo Empresarial

Este site usa cookies e dados pessoais de acordo com os nossos Termos de Uso e Política de Privacidade e, ao continuar navegando neste site, você declara estar ciente dessas condições.