A alta do combustível, em meio às tensões geopolíticas no Oriente Médio, vai além de um impacto conjuntural sobre custos e reacende um debate estrutural: a vulnerabilidade da matriz logística brasileira e os entraves para a adoção de alternativas energéticas.
Altamente dependente do diesel, o setor volta a enfrentar um cenário de pressão sobre margens, com reflexos diretos na operação e nas negociações contratuais. A volatilidade reitera a necessidade de diversificação, com avanço de soluções como biometano, GNV e eletrificação. No entanto, o ritmo de incorporação ainda é limitado por obstáculos conhecidos, que envolvem, sobretudo, infraestrutura insuficiente e elevado custo de implementação.
Para a diretora executiva da ABOL, Marcella Cunha, o momento evidencia a demanda por uma abordagem mais sistêmica. “O diesel é um insumo transversal, presente em vários modais, até na aviação. Esse contexto acentua a urgência de avançar em variantes sustentáveis, em linha com a legislação atual que busca estimular novas fontes energéticas”, afirma.
Na avaliação dela, o programa de descarbonização “Combustível do Futuro”, com previsão de R$ 260 bilhões até 2037, surge como o principal instrumento para unir a cadeia. No entanto, o desafio não está somente na oferta de novas tecnologias, mas na coordenação entre os agentes.
Esse ponto se conecta diretamente a outra fragilidade histórica, a baixa articulação entre modais. Em um ambiente de despesas voláteis, a multimodalidade deixa de ser apenas uma agenda de eficiência e passa a ser um fator estratégico de resiliência. Para a ABOL, tratar essa integração como política pública é condição necessária para reduzir riscos e aumentar a competitividade do segmento.
Atualmente, o diesel representa cerca de 40% dos gastos dos OLs ampliando a exposição das empresas a choques externos. Dentro dessa realidade, a transição energética deixa de ser uma pauta de médio prazo e passa a ocupar o centro do planejamento do negócio.
Transição avança, mas ainda de forma desigual
Apesar do avanço dos debates, a escolha de novas energias ainda ocorre de forma heterogênea. Soluções como o biometano começam a ganhar espaço e, em alguns casos, já apresentam eficiência superior ao elétrico. Porém, o seu uso exige adaptações relevantes, principalmente em infraestrutura e abastecimento.
Além disso, o desenvolvimento dessas opções ainda enfrenta barreiras regulatórias e burocráticas. Projetos que buscam maior autonomia energética, como a implantação de usinas próprias próximas às operações, demandam autorizações específicas e alto nível de investimento, limitando a escala.
De acordo com Marcella Cunha, o contexto mostra a falta de um ecossistema coeso capaz de alinhar indústria, operadores e demais elos da cadeia. “É um exercício nosso formar essas redes em que a gente traga mais a Anfavea, associação que representa a indústria, mesmo ela também tendo os seus limites institucionais”, conclui.